
foto: http://ericconklin.com/images/holmes.jpg
“Você deve ter notado como os extremos se atraem, o espiritual o animal, o homem das cavernas o anjo.”
(Sherlock Holmes)

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“Você deve ter notado como os extremos se atraem, o espiritual o animal, o homem das cavernas o anjo.”
(Sherlock Holmes)

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Chovia muito naquele mês. A cidade estava inundada. Enchentes, pessoas desesperadas em abrigos da prefeitura, deslizamentos e carros com água até a capota. Era o mês perfeito para ficar em casa, somente em casa.
Entretanto, era mais um dia de trabalho. Olhava para a minha mesa no escritório e só via papéis. Papéis de todos os tipos: memorandos, cartas e ofícios. Respirei fundo, sentei-me em frente à maquina e comecei a datilografar. A máquina de datilografar parecia ser a coisa mais moderna daquela repartição. O prédio estava caindo aos pedaços, as paredes mofadas e escuras, lâmpadas com mau contato e aquele cheiro insuportável de bolor.
Hora do almoço. O pessoal da repartição e eu fomos, como sempre, ao Farolete; um bar antigo lá do centro. Era o único lugar que o nosso dinheiro conseguia bancar e, para ajudar, o nosso vale-refeição não ajudava muito. Ele mais parecia um cômodo daquele escritório por também ser antigo e sujo. Cheirava a temperos fortes, as carnes e os embutidos ficavam pendurados no teto e os atendentes tinham aquela cara de sujeira combinando com os aventais manchados de gordura.
Almocei e quando olhei no relógio ainda faltavam quarenta minutos. Comer depressa e fumar são dois hábitos terríveis que eu tenho. Até tento me policiar, mas não consigo.
Como desabava água do céu, o jeito era acender um cigarro e ficar lá no balcão esperando dar a hora. Olhei para as ruas e só via pessoas ensopadas se escondendo em baixo dos toldos das lojas, os carros em um trânsito infernal, os ônibus lotados com passageiros se espremendo e a lembrança de que daqui a pouco teria que voltar ao trabalho me desanimava ainda mais.
Na hora de voltar, fui correndo até o prédio da repartição e entrei encharcado. Reclamações é o que não faltaram dentro da minha cabeça, como eu queria estar em casa, sossegado e livre deste compromisso diário.
Hoje sou aposentado. Vejo cada dia se passar e fico aqui na minha casa com minha inseparável revistinha de palavras cruzadas. Minha filha que cuida de mim não me permite fazer nada, ela diz que eu não posso me cansar.
Que saudade daquela época que eu trabalhava, tinha liberdade. Sinto saudades até das minhas reclamações nos dias de chuva. Aliás, a cidade não mudou nada, a chuva continua, e eu aqui olhando pela janela da sala.
A casa que eu quero cheira a pinho sol,
Tem jardim, varanda e cadeira de balanço,
Passo lá e só fico imaginando.
Pensando no casal de velhinhos que mora lá,
No chá que eles tomam às quatro da tarde,
E no cheiro do pinho sol que se espalha pela rua.
Hoje é difícil achar lugares assim.
Tudo está tão cinza, tão asfalto, tão frio,
Mas a casa que eu quero tem um sapo de cerâmica no jardim.
E lá é o lugar ideal: tranqüilo, tranqüilo.
(Guilherme Roque)