
foto: http://larissalaira.blogspot.com/2007_05_20_archive.html
Aquele rosto! Tenho certeza! É ele! Lembro-me como se fosse hoje daquele maldito dia!
Há quinze anos…
Ia viajar para casa, fiquei três anos sem ver minha família. Minha mãe, com o dinheiro da indenização pela morte de meu pai, financiou minha estadia durante esse tempo em uma república próxima à Universidade onde me graduei.
Estava ansioso para ver minha família. Entretanto, hora infeliz a que resolvi voltar. Tudo começou naquela estação rodoviária. Minha passagem tinha sido comprada para o último horário, gostava de viajar à noite, me sentia melhor, parecia que passaria mais rápido e logo chegaria ao meu destino.
Antes de embarcar no ônibus decidi ir à lanchonete da estação e comprar algo para levar. Por que fui fazer isso? O pior erro da minha vida.
Quando estava a caminho, um sujeito pálido, magro como um esqueleto, os olhos fundos e negros e com o corpo todo envolto em um sobretudo preto esbarrou em mim e derrubou o copo de café na minha roupa. Que azar! E agora? Faltava menos de cinco minutos para o embarque e tinha que me trocar de roupa. Como resultado, perdi o ônibus.
Tive que dormir em um hotel desses de periferia e aguardar o dia seguinte para poder trocar minha passagem. Quando estava na fila do hotel para pegar as chaves do quarto onde me instalaria durante a noite, aquele mesmo homem que esbarrou em mim e derrubou o café me olhava atentamente, a impressão que tive era que ele me seguia com o olhar.
Era apavorante, parecia uma criatura ao invés de um humano. Aquele rosto… Nunca vou esquecer, somente o rosto era visível, e ainda assim era branco, chegando a parecer um fantasma, o resto do corpo, como ele usava um sobretudo escuro, parecia flutuar ao invés de andar. Um demônio! Era isso o que ele parecia!
Decidi me acalmar e, claro, trancar a porta do quarto. Pensei que tudo se resolveria no dia seguinte e logo estaria em casa. Me enganei! Meu pior pesadelo só estava por começar.
Não conseguia dormir, o estalar do relógio era a única coisa que ouvia. Virava de um lado, virava do outro, e nada do sono vir. Decidi me levantar e sentar-me próximo a janela para acender um cigarro, afinal, esse vício era a única coisa que me acalmava.
De repente, lá estava ele. Do lado de fora, olhando em direção ao meu quarto incessantemente, e quando me viu soltou um sorriso ardiloso, maléfico. Aquilo foi assustador! Imediatamente fechei as cortinas e, apavorado, acendi a luz. Quando olhei de novo na janela ele havia sumido.
Dormi. Não sei como, mas depois daquilo dormi. No dia seguinte, quando acordei e fui à rodoviária para tentar trocar o bilhete, uma multidão de pessoas havia tomado conta daquele espaço, estava impossível andar por ali, vi também repórteres transitando em tudo quanto era lado. O que diabos estava acontecendo ali?
Um guarda me informou que o último ônibus que partiu ontem sofreu um acidente no meio da estrada e que todos os passageiros e o motorista morreram carbonizados.
Um arrepio me percorreu a espinha, foi uma sensação horrível. Fiquei apavorado, eu ia embarcar naquele ônibus! Meu Deus! O que estava acontecendo?
Quando me recuperei do choque, pelo menos naquela hora, olhei para frente e encostado na pilastra estava ele, estático e rindo, gargalhando. Aquele mesmo homem que me vigiou à noite estava ali, parecendo se divertir com meu medo. Sua expressão mudara completamente. O olhar vago e fundo deu espaço a olhos cruéis, impiedosos, satânicos. Sua gargalhada me assustava, era um riso irônico, sarcástico, cruel.
Decidi andar depressa. Ele veio em minha direção e ao passar do meu lado simplesmente sussurrou: “Não era sua hora. A próxima vez que nos vermos você virá comigo”.
Depois disso, não há uma noite em que consigo dormir. Todas as noites a lembrança daquele riso e daqueles olhos me vêem a mente. Tenho estado perturbado durante esses quinze anos. Morrendo de medo de ver aquele sujeito novamente na minha frente.
Nada adianta! Milhares de vezes já fui à igreja, viajei novamente e nada. É horrível, tenho medo. Medo de ver aquele desgraçado novamente e saber que meu fim está próximo.
Pois hoje ele voltou. Dessa vez pior. Ria incessantemente de mim! Aquele riso me atormentou durante quinze anos e agora ele estava lá de novo, gargalhando e me vigiando. Novamente, quando acordei durante a noite para beber água, avisto pela janela da cozinha e lá esta ele no fundo da casa me observando.
Meu desespero aumentou e meu medo também! Será meu fim?! E agora?!
Ele cada dia que passa me atormenta mais e mais. Estou ficando louco! Não agüento mais! É um demônio! Só pode ser isso!
Aquele rosto é inconfundível, inconfundível!… Chegou a minha hora…